5 LIÇÕES QUE APRENDI COM ANA
Josivaldo Oliveira
O texto de 1 e 2 Samuel nos conta a história de Ana — uma das histórias
mais lindas e profundas das Sagradas Escrituras. Essa narrativa ensina como um
coração quebrantado se aproxima de Deus, e como uma pessoa que se volta para
Ele recebe a resposta daquilo que tem buscado e clamado.
Não é à toa que o salmista afirma: "O sacrifício agradável a Deus é
o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó
Deus" (Salmo 51:17). Ao percorrermos o primeiro e o segundo capítulos de 1
Samuel, aprendemos lições preciosas sobre oração, entrega, sacrifício,
maturidade espiritual e perseverança na fé — todas elas evidenciadas na vida de
Ana.
Ana foi uma mulher amargurada de espírito, que clamava a Deus por um
filho. Era estéril — condição que, naquela época, a tornava alvo de humilhação
constante. Penina, a outra mulher de Elcana, a ridicularizava sem cessar,
porque na cultura hebraica uma mulher que não podia gerar era considerada
amaldiçoada por Deus.
Pense no peso desse sofrimento: além da dor da esterilidade, além do
sonho negado da maternidade, Ana ainda suportava o escárnio da rival e a
incompreensão do próprio marido. Elcana, que a amava profundamente, chegou a
perguntar: "Por que choras e não comes? Por que está triste o teu coração?
Não sou eu para ti melhor do que dez filhos?" (1 Samuel 1:8). Mesmo com
todo o amor, ele não conseguia compreender a dimensão da sua dor.
Foi então que Ana entendeu que a solução para tudo aquilo era derramar o
coração diante do Senhor. A Bíblia diz que ela foi ao templo e começou a orar
com coração quebrantado e amargura de alma — tão abatida que a oração nem saía
em voz audível; eram apenas sussurros, gemidos. E é assim, muitas vezes,
conosco também. Existem momentos tão desafiadores na nossa vida que não
conseguimos articular palavras. Só saem lágrimas, gemidos e suspiros.
Mas esses gemidos da alma são interpretados pelo Espírito Santo, que os
conduz ao trono da graça e traz a resposta de Deus à nossa vida — como
aconteceu com Ana. É por isso que a Bíblia nos diz: "Da mesma forma, o
Espírito nos ajuda na fraqueza, pois não sabemos orar como convém, mas o
próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Romanos
8:26).
Há ainda uma expressão poderosa que Jesus usa em Mateus 6:6: "O teu
Pai, que vê em secreto, te recompensará." O texto não diz "o teu Pai
que ouve" — diz "que vê". Porque há momentos em que você não
consegue produzir palavras. Você está ali de joelhos, chorando, soluçando,
balbuciando como uma criança que está aprendendo a falar. E Deus vê. Ele viu a
oração de Ana. E nos vê também.
PRIMEIRA LIÇÃO: O SENHOR OUVE O CLAMOR DOS QUE DECIDEM BUSCÁ-LO
Nos versículos 1 a 18 do primeiro capítulo de Primeira Samuel, vemos a
saga de Ana buscando a Deus. Ela poderia ter buscado vingança de Penina.
Poderia ter reclamado da vida, murmurado ou questionado: "Por que Deus me
fez estéril?" Mas, em vez disso, Ana decidiu buscar ao Senhor, porque
entendeu que somente Ele era capaz de resolver o seu problema.
Que lição preciosa para nós! Muitas vezes não buscamos a solução em Deus
— ou o procuramos apenas como último recurso. Diante de uma crise, a tendência
é reclamar, murmurar, responsabilizar líderes, o governo ou a família. Às vezes
buscamos até vingança daqueles que nos prejudicaram. Ana não fez nada disso.
Ela foi diretamente àquele que tinha o poder de resolver o seu problema.
E o Senhor a ouviu. Isso nos ensina uma verdade fundamental: Deus ouve o
clamor de todos os que decidem buscá-lo, humilhar-se diante d'Ele e invocar o
Seu nome santo. A Bíblia é clara: "Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e
achareis; batei, e abrir-se-vos-á" (Mateus 7:7). E ainda: "Se o meu
povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar e buscar a minha face, e se
converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus
pecados e sararei a sua terra" (2 Crônicas 7:14).
Nenhuma lágrima derramada na presença de Deus ficará sem resposta.
Nenhuma oração, nenhuma súplica, nenhum gemido inexprimível gerado diante d'Ele
será ignorado. Muitas vezes, as suas lágrimas são toda a oração de que você
precisa — e, misturadas com fé, elas são levadas ao trono da graça e atraem o
favor de Deus na sua direção.
Depois que Ana clamou, Deus usou o próprio sacerdote Eli — que a
princípio a havia mal compreendido — para pronunciar a palavra: "Vai em
paz; e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste" (1 Samuel
1:17). E assim aconteceu. A situação de Ana era, do ponto de vista natural,
impossível. Mas Deus é o Deus que faz o impossível acontecer.
Em vez de reclamar, murmurar ou buscar vingança, decida orar. Decida
buscar o Senhor. Qual é o milagre que você precisa? É na sua família? No seu
casamento? Na vida dos seus filhos? Nas suas finanças? Na sua saúde? Seja qual
for a área, se você clamar, se você interceder, se você buscar — “Samuel” vai
nascer na sua vida. O milagre vai acontecer.
SEGUNDA LIÇÃO: DEUS FAZ MAIS DO QUE PEDIMOS OU PENSAMOS
Ana pediu um filho a Deus. Apenas um — que tirasse dela a vergonha da
esterilidade, que removesse o estigma de mulher amaldiçoada, que alegrasse a
sua casa. Mas a Bíblia nos diz em 1 Samuel 2:21: "E o Senhor visitou a
Ana, e ela concebeu e deu à luz três filhos e duas filhas." Além de
Samuel, ela teve mais cinco filhos. Pediu um, recebeu seis — porque Deus sempre
faz além do que pedimos ou pensamos.
O apóstolo Paulo confirma essa verdade: "Ora, àquele que é poderoso
para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o
poder que opera em nós" (Efésios 3:20). Esse poder está operando em você
agora. Ele pode fazer mais do que você está pedindo, mais do que está pensando,
mais do que está imaginando.
Talvez você esteja pedindo a Deus a salvação do seu marido — e Deus
esteja querendo fazer dele um pregador da Palavra. Talvez você peça pela
liberdade do seu filho, e Deus queira fazer dele um missionário. Talvez você
esteja pedindo a bênção de uma pequena empresa, e Deus queira alargar as suas
tendas além do que você consegue enxergar. Porque é assim que Ele age: não
apenas abençoa — Ele transborda.
Ana pediu um filho para calar a boca da rival e remover a vergonha. E
Deus deu a ela uma aljava completa. O Salmo 127:3-5 diz: "Herança do
Senhor são os filhos; o fruto do ventre, um galardão. Como flechas na mão do
guerreiro, assim são os filhos da juventude. Feliz o homem que enche delas a
sua aljava." Ana recebeu seis flechas, porque Deus é poderoso para fazer
mais.
TERCEIRA LIÇÃO: A BÊNÇÃO NÃO PODE ROUBAR O LUGAR DO ABENÇOADOR
Ana fez um voto a Deus: "Senhor dos Exércitos, se benignamente
atentares para a aflição de tua serva, se te lembrares de mim e me deres um
filho varão, eu o darei ao Senhor por todos os dias da sua vida" (1 Samuel
1:11). Ela entendia que a bênção não poderia ser maior do que o Abençoador.
Assim como Deus pediu a Abraão que oferecesse Isaque no altar (Gênesis
22), não porque precisasse provar o que já sabia — pois Deus é soberano e
onisciente —, mas para que Abraão se conhecesse e entendesse que a bênção não
poderia ocupar o lugar do Abençoador no seu coração. A bênção é legítima e
preciosa — mas não pode se tornar um ídolo.
Um ídolo não é apenas uma escultura diante da qual alguém se prostra. É
qualquer coisa que pode roubar o lugar de Deus no coração — um filho, um
marido, uma esposa, um carro, uma empresa, um negócio. Qualquer coisa que
assuma o trono do coração no lugar do Senhor. A Bíblia alerta em Eclesiastes
5:4 que "voto de tolo" é aquele que é feito e não cumprido. Ana,
porém, foi diferente.
Quando Samuel foi desmamado, ela o levou ao templo em Siló e o colocou
nas mãos do sacerdote Eli: "Por este menino orava eu, e o Senhor me
concedeu a petição que lhe fizera. Pelo que também eu o trago como devolvido ao
Senhor" (1 Samuel 1:27-28). A partir daquele momento, Samuel ficou morando
no templo — treinado a ouvir a voz de Deus desde criança, até se tornar
profeta, sacerdote e juiz em Israel.
Imagine o desprendimento de Ana. Com o filho desmamado — em média aos
dois anos —, ela o levou ao templo e o deixou ali. Passaria a vê-lo apenas uma
vez por ano. E Samuel não guardou mágoa. Provavelmente foi ele mesmo quem
escreveu esse texto, para mostrar o quanto Ana foi honrada por Deus justamente
por estar disposta a abrir mão da bênção para servi-Lo.
Há alguns anos, quando meu pai faleceu, recebemos um seguro de vida — uma
herança que, para mim e minha esposa, depois de quinze anos sonhando com a casa
própria, parecia um bálsamo no deserto. Fechamos o negócio por um terreno aqui
mesmo, na Palmeira. Estávamos felizes. Mas quando fui orar, ouvi claramente a
voz do Espírito Santo: não era para construir a nossa casa. Era para doar o
terreno à igreja — o terreno onde estamos agora.
Fui falar com minha esposa. Ela perguntou: "Você tem certeza que
Deus falou contigo?" Respondi: "Creio que sim." E ela disse:
"Se Deus falou contigo, então pode doar." E doamos. Continuamos
sonhando, esperando, crendo. E no final do ano passado, depois de 28 anos de
espera, o Senhor nos permitiu ter a nossa casa própria. Não à vista — estamos
pagando pela Caixa. Se Deus não mandar uma bênção para quitar antes, vou ter
mais de 80 anos quando terminar de pagar. Mas Deus tem honrado, parcela a
parcela.
Não pense que a vida de um pastor é fácil. É na luta, é na peleja. Mas
Deus honra. E muitas vezes Ele nos pede que abramos a mão de algo para nos
abençoar com muito mais. Como fez com Ana. Como fez com Abraão. Como tem feito
comigo.
QUARTA LIÇÃO: AS MAIORES VERDADES SE APRENDEM NO DESERTO
Depois de toda a sua experiência com Deus, Ana aprendeu verdades
espirituais extraordinárias. Em 1 Samuel 2:1-10, ela ora e proclama a soberania
divina com uma profundidade que só a provação é capaz de produzir: "O meu
coração se alegra no Senhor; a minha força está exaltada no Senhor. O arco dos
poderosos é quebrado, e os fracos se cingem de força" (1 Samuel 2:1,4).
Ana entendeu que é Deus quem exalta e quem humilha — que o homem não
prevalece pela própria força. Assim como Jó, que após suportar uma prova
extraordinária declarou: "Antes eu te conhecia de ouvir falar, mas agora
os meus olhos te veem" (Jó 42:5). As maiores verdades só se aprendem no
meio da provação.
Você vai aprender mais no tempo da provação do que no tempo da bonança.
Não pense que o que está enfrentando agora é um desperdício. O deserto não é
morada permanente — é escola. É a maior escola do Espírito Santo. Nem mesmo o
Senhor Jesus foi poupado do deserto: "Embora sendo Filho, aprendeu a
obediência por meio do que sofreu" (Hebreus 5:8).
Se o próprio Filho de Deus — obediente e submisso ao Pai por natureza —
precisou aprender pelo sofrimento, quanto mais nós, cuja natureza é rebelde e
obstinada. O apóstolo Paulo reconheceu isso em Romanos 7:19: "O bem que
quero não faço, mas o mal que não quero esse pratico." A saída que ele
encontrou foi a mesma de sempre: a graça de Deus em Cristo Jesus.
Há uma lei do reino que aprendi e peço a Deus que me dê sempre graça de
lembrar: quanto mais rápido a gente aprende a lição, mais rápido sai do
deserto. O povo de Israel poderia ter chegado à Terra Prometida em dias — mas
passou quarenta anos errando porque murmuravam e chamavam o maná de "pão
desprezível" (Números 21:5). Jesus foi ao deserto e ficou quarenta dias,
porque era o Filho obediente. A diferença está na disposição de aprender.
Recentemente vivi isso na própria pele. Depois de receber duas bênçãos
pelas quais orava há mais de vinte anos — a viagem a Israel e a casa própria —,
fui atacado violentamente na saúde. A prova foi severa. Houve momentos em que
só consegui dizer: "Senhor, se não for a Tua graça, não vou
suportar." E Ele colocou a Sua mão. Ele sustentou. Cada dia mais forte,
cada dia mais saudável, para a glória de Deus.
Deus não poupou Ana do deserto. Não poupou Jó, Moisés, o povo de Israel,
Gideão — nem a mim, nem a você. Todos os filhos de Deus são treinados no
deserto. Mas as maiores experiências com Ele acontecem exatamente ali. No
deserto você vai ouvir a Sua voz, ver a Sua mão te sustentando e experimentar a
Sua ação sobrenatural.
QUINTA LIÇÃO: BUSQUE A DEUS TANTO NA ADVERSIDADE QUANTO NA BONANÇA
A última lição que aprendemos com Ana é a lição da constância. Em 1
Samuel 1:10, ela ora no tempo da prova: "Ana, com amargura d'alma, orou ao
Senhor e chorou abundantemente." Mas em 1 Samuel 2:1, depois de receber o
milagre, ela continua orando: "O meu coração se alegra no Senhor."
Ana não buscou a Deus apenas na crise — ela o buscou também na bênção.
A maioria dos crentes age diferente: no tempo da crise, chora, jejua,
ora, não perde um culto. Mas quando a bênção chega, desaparece. Quando Deus faz
o milagre, some. A bênção se transforma em ídolo, e o Abençoador é esquecido.
Ana nos ensina o caminho contrário: ela estava mais apegada ao Dono da bênção
do que à bênção em si.
É por isso que no capítulo 2 ela não diz "o meu coração se alegra na
bênção" — ela diz "o meu coração se alegra no Senhor". A alegria
dela estava em Deus, não no que Deus havia dado. E é essa postura que nos
protege do maior perigo da prosperidade: o afastamento de Deus.
Deus não tem dificuldade alguma de nos abençoar — na saúde, no casamento,
nas finanças. O desafio está em nós: nem todo mundo está preparado para a
bênção. Ela pode ser mais perigosa do que o tempo da adversidade, se o coração
não estiver preparado. A Bíblia nos adverte que nos últimos dias "o amor
de muitos esfriará" (Mateus 24:12) — e vemos isso acontecer ao redor.
Por isso, faça um pacto com Deus como Ana fez: "Senhor, quando o
Senhor me abençoar, vou continuar buscando, continuarei fervoroso na Tua
presença." Vigile o seu coração. Não deixe que a bênção roube o lugar do
Abençoador.
CONCLUSÃO
A história de Ana começou com joelhos dobrados, coração quebrantado e
lágrimas nos olhos. E termina com um cântico de vitória ao Senhor. Começou com
humilhação, com vergonha e com o peso da esterilidade — e termina com a aljava
cheia e a boca transbordante de louvor.
Você também vai cantar o seu hino de vitória. Que possamos aprender a
buscar o Senhor com intensidade — na prova e na bonança — e a devolver para Ele
o fruto do nosso milagre. Em nome de Jesus.
Amém.